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Quando a dor vira julgamento: Por que algumas pessoas que emagrecem se tornam gordofóbicas?

  • 6 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 18 de mar.

Uma reflexão necessária


Te convido a fazer uma reflexão antes de ler o texto abaixo. Este é um tema delicado e complexo. Nos últimos tempos, tenho observado conteúdos nas redes sociais que me incomodam profundamente. Isso me entristece, pois muitas vezes esses discursos vêm de pessoas que já viveram a experiência de serem gordas.


Ser uma pessoa gorda nesta sociedade é, por si só, algo muito difícil. Mas há um fenômeno que merece atenção: algumas pessoas que emagrecem acabam reproduzindo a opressão que um dia sofreram. Isso levanta uma reflexão importante.


A transformação e suas consequências


Não sei se vocês já assistiram ao filme Mean Girls (Meninas Malvadas). A personagem de Lindsay Lohan começa deslocada, tentando encontrar seu lugar. Quando é aceita por um grupo popular, começa a reproduzir as mesmas atitudes que antes a machucavam. Isso acontece porque ela está inserida em um ambiente onde esse comportamento é normalizado.


Na vida real, algo semelhante ocorre. A dor de viver em um corpo gordo em uma sociedade gordofóbica pode ser profunda. Cada pessoa encontra suas formas de lidar com isso. Mas há um ponto crucial: podemos transformar essa dor em consciência ou reproduzir a lógica de opressão que nos feriu.


Por isso, trago alguns pontos de reflexão. Não como verdades absolutas, mas como um convite à conversa. Quero ouvir o que vocês pensam, o que já viveram ou perceberam sobre isso.


1. Um fenômeno curioso nas redes


Um padrão tem aparecido com frequência nas redes sociais. Algumas das críticas mais duras contra pessoas gordas vêm de quem já foi gorda.


  • Perfis de “antes e depois” que criticam o body positivity.

  • Discursos de “eu consegui, então todo mundo consegue”.

  • Desprezo por hábitos que a própria pessoa já teve.

  • Se colocar como "monstro" em fotos antigas.


Isso gera confusão: como alguém que viveu preconceito pode reproduzir o mesmo julgamento?


2. O que realmente muda quando alguém emagrece


Quando uma pessoa passa por uma transformação corporal significativa, três mudanças costumam ocorrer:


a) Mudança no tratamento social:

  • O mundo responde de forma diferente.

  • Elogios aparecem.

  • A validação aumenta.

  • O status social muda.


b) Mudança na narrativa pessoal:

  • A história da própria vida é reinterpretada.

  • Algo que antes parecia complexo é contado como uma decisão simples: “Eu só precisava de disciplina.”


É importante ressaltar que recorrer a canetas ou à bariátrica não elimina a necessidade de disciplina. Há um processo real envolvido. Diminuir essas escolhas simplifica histórias muito mais complexas.


c) Mudança de posição simbólica:

  • A pessoa deixa de se ver como alguém que sofre preconceito e passa a se ver como exemplo de superação.


Nesse ponto, uma vitória pessoal pode se transformar em argumento moral.


3. Quando a experiência vira julgamento


Com essa mudança, surge uma tensão silenciosa: disciplina individual versus julgamento moral do outro. Quem ainda está no ponto anterior passa a ser visto como preguiçoso, acomodado, sem força de vontade. Isso não acontece porque as pessoas são cruéis, mas por um incentivo psicológico forte: distanciar-se da identidade que foi machucada.


4. O que a sociedade fez com os corpos gordos


Pessoas gordas passam a vida ouvindo que são um problema, uma doença, um erro. Essa narrativa machuca profundamente. Quando alguém emagrece, muitas vezes surge um impulso quase inconsciente: provar que agora pertence ao “lado certo”. Isso é uma tentativa de sobrevivência social, mas pode resultar em dor, pois a pessoa que foi ferida por esse rótulo começa a reproduzir o mesmo preconceito.


5. Quando o oprimido reproduz a opressão


Esse fenômeno não é exclusivo da questão do peso. Ele aparece em muitos contextos sociais. Ex-fumantes frequentemente se tornam intolerantes com fumantes. Ex-pobres podem defender a meritocracia. Convertidos religiosos costumam ser os mais rígidos.


O mecanismo é semelhante: quanto maior o sofrimento associado à identidade antiga, maior a necessidade de se afastar dela, às vezes atacando quem ainda está ali.


6. O erro das discussões públicas


Quando esse assunto surge, o debate costuma cair em dois extremos:


Erro 1: Demonizar quem emagrece, como se orgulho pessoal ou disciplina fossem ilegítimos.


Erro 2: Transformar emagrecimento em prova moral, como se todo corpo fosse apenas resultado de força de vontade.


Ambos simplificam uma realidade muito mais complexa.


7. O que realmente está no centro dessa questão


O cerne da questão não é emagrecer. O que vejo é a violência simbólica que pessoas gordas sofrem durante a vida inteira. Quando uma sociedade trata um grupo como menos capaz, digno ou saudável, cria uma pressão enorme para que qualquer saída desse grupo seja tratada como prova de valor. Isso pode transformar dor em julgamento.


8. O caminho que eu escolho


Diante de tudo isso, quero deixar claro qual é o caminho que escolho seguir, baseado em:


  • Dignidade corporal

  • Liberdade de movimento

  • Acesso ao esporte

  • Acesso à saúde

  • Pertencimento


Porque emagrecer não deveria ser um passaporte para dignidade. E continuar gordo nunca deveria ser motivo para perdê-la.


Antes de terminar, quero deixar uma coisa clara: essa reflexão não é sobre emagrecer ou não. Cada pessoa sabe onde a dor aperta. Cada corpo tem sua história. Cada caminho é único.


O ponto que trago aqui é outro. Passar anos sendo oprimido por causa do próprio corpo é uma experiência profundamente dolorosa. Muitas pessoas carregam marcas reais dessa violência. Mas essa dor não pode nos levar a repetir a mesma lógica com outras pessoas.


Quando alguém que já sofreu preconceito começa a tratar outras pessoas gordas com desprezo, o ciclo de opressão continua. Precisamos construir um mundo onde ninguém precise provar seu valor pelo tamanho do corpo. Um mundo onde ninguém precise se diminuir para caber.


Por isso, trago esses pontos, não como julgamento, mas como um convite à reflexão.


E quero muito ouvir vocês também. O que pensam sobre isso? O que já perceberam ou viveram?


Conversar sobre essas questões com honestidade e respeito é uma das formas mais poderosas de quebrar ciclos que machucam tantas pessoas. No fim das contas, o verdadeiro movimento de liberdade acontece quando ninguém precisa perder a própria dignidade para caber "em caixinhas" no mundo, e muito menos se afastar de quem um dia foi.


A gente não precisa se apequenar para provar o próprio valor através do tamanho do corpo.

3 comentários


Membro desconhecido
18 de mai.

Com o passar do tempo, passei a encarar a internet como um espaço em que tudo compete pela nossa percepção ao mesmo tempo, mesmo quando não estamos conscientes disso. Vídeos, textos, notificações e plataformas diferentes criam um ambiente de estímulo constante, onde a mente precisa escolher o que filtrar o tempo todo. Dentro desse cenário, https://betanoonline.com/ surge apenas como mais um elemento desse ecossistema digital, sem destaque especial, mas contribuindo para essa dinâmica geral de atenção fragmentada. Essa observação acabou me fazendo valorizar mais os momentos de foco contínuo, que hoje parecem cada vez mais raros.

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Membro desconhecido
06 de mar.

Nossa, são taaaaantas coisas para comentar, mas vou de uma lembrança pessoal. Um rapaz, conhecido, que emagreceu e se tornou extremamente agressivo com pessoas gordas. Humilhava e praticamente exigia que emagrecêssemos, dizia que não tínhamos vida, que precisávamos mudar, que nossa situação era horrível. Não sei se ele queria nos convencer ou precisava convencer a ele mesmo para suportar os sofrimentos todos da pós-bariátrica (nem sempre feita com acompanhamento), mas eu devo confessar que criei preconceito com ex-gordo. Eu fugia de pessoas em processo de emagrecimento. Outro ponto, que vou tratar só por alto, é o excesso de validação. É tanto holofote, aplauso. Não importa a causa. Esses dias mesmo comentei em outra publicação. Parei de tomar medicamentos para um…

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Membro desconhecido
06 de mar.

Meu Deus que texto NECESSÁRIO, Naj!! Extremamente coerente, eloquente e bem escrito. Eu perdi um peso sem nem estar buscando especificamente por isso, e sofro demais quando me elogiam só por estar com um corpo mais socialmente aceito, sabe? Isso pra mim nem é nada. É só a ponta do iceberg. Minha vitória pra mim é o processo de auto cuidado que eu iniciei pensando no meu eu futuro, e isso não tem nada a ver com perdas. Tem muito mais a ver com ganhos! Odeio quando me dizem que AGORA eu estou linda, pq pra mim eu sempre fui linda. Mas ngm tá preparado pra essa conversa.

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