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Quando emagrecer muda mais que o corpo, muda também o lugar na "hierarquia social".

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura



ATENÇÃO: TEXTO POLÊMICO VINDO 😳😱


Te convido a fazer uma reflexão antes de ler o texto abaixo: Quando a dor vira julgamento: Por que algumas pessoas que emagrecem se tornam gordofóbicas?


Antes de realmente começar esse texto, eu queria trazer um pequeno contexto...


Tenho pensado muito sobre esse assunto e, honestamente, demorei bastante para escrever sobre ele. Porque essa é uma conversa complexa demais para ser tratada de forma leviana.


Nos últimos tempos eu tenho visto alguns conteúdos nas redes sociais que têm me incomodado muito. E isso me deixa triste, porque muitas vezes são discursos duros contra pessoas gordas vindos de pessoas que já viveram exatamente essa experiência.


Ser uma pessoa gorda nessa sociedade já é, por si só, algo muito difícil (mais abaixo eu vou falar um pouco sobre isso). Mas existe um fenômeno que também tem chamado atenção: algumas pessoas emagrecem e acabam reproduzindo exatamente o mesmo tipo de opressão que um dia viveram. E isso levanta uma reflexão importante...


Não sei se vocês já assistiram o filme Mean Girls (Meninas Malvadas). A personagem da Lindsay Lohan começa a história como alguém deslocada, tentando encontrar seu lugar. Mas, quando passa a ser aceita por um grupo popular, ela começa a reproduzir exatamente as mesmas atitudes que antes a machucavam. Isso acontece porque ela está inserida em um ambiente onde aquele comportamento é normalizado.


Na vida real, às vezes acontece algo parecido: a dor de viver em um corpo gordo numa sociedade gordofóbica pode ser profunda. E cada pessoa encontra suas próprias formas de lidar com isso.


Mas existe um ponto de escolha importante aqui: a gente pode transformar essa dor em consciência ou acabar reproduzindo a mesma lógica de opressão que nos feriu.


Por isso eu quis trazer alguns pontos de reflexão abaixo. Não como verdades absolutas, mas como um convite para conversa.


Quero muito ouvir também o que vocês pensam, o que vocês já viveram ou perceberam sobre isso.


Porque esse é um tema delicado, e quanto mais a gente consegue falar sobre ele com honestidade e cuidado, mais a gente fortalece espaços de diálogo e pertencimento.


Então vamos aos pontos que discussão:


1. Um fenômeno curioso nas redes


Existe um padrão que aparece com frequência ultimamente nas redes sociais. Algumas das críticas mais duras contra pessoas gordas não estão vindo só de pessoas que sempre foram magras. Elas estão vindo de pessoas que já foram gordas.


  • Perfis de “antes e depois” que passam a criticar o body positivity.

  • Discursos de “eu consegui, então todo mundo consegue”.

  • Desprezo por hábitos que a própria pessoa já teve.

  • Se colocar como "monstro" em fotos antigas


Isso tem me gerado essa confusão: Como alguém que viveu todo esse preconceito, pode reproduzir exatamente o mesmo julgamento?


2. O que realmente muda quando alguém emagrece


Quando uma pessoa passa por uma transformação corporal grande, três mudanças costumam acontecer ao mesmo tempo.


a) Mudança no tratamento social:

  • O mundo responde diferente.

  • Elogios aparecem.

  • Validação aumenta.

  • O status social muda.


b) Mudança na narrativa pessoal:

  • A história da própria vida começa a ser reinterpretada.

  • Algo que antes parecia complexo passa a ser contado como uma decisão simples: “Eu só precisava de disciplina.”


E aqui vale um cuidado importante: recorrer a canetas ou à bariátrica também não elimina a necessidade de disciplina. Existe processo, adaptação e um caminho real envolvido. Diminuir essas escolhas também é uma forma de simplificar demais histórias que são muito mais complexas.


c) Mudança de posição simbólica:

  • A pessoa deixa de se ver como alguém que sofre preconceito e passa a se ver como exemplo de superação.


Nesse ponto acontece algo muito comum:

  • Uma vitória pessoal começa a virar argumento moral.


3. Quando a experiência vira julgamento


Quando essa mudança acontece, surge uma tensão silenciosa: disciplina individual × julgamento moral do outro.


Quem ainda está no ponto anterior passa a ser visto como:

preguiçoso, acomodado, sem força de vontade...


Mesmo que a própria pessoa já tenha vivido aquela realidade. Isso não acontece porque as pessoas são cruéis por natureza.


Acontece porque existe um incentivo psicológico forte: distanciar-se da identidade que foi machucada.


4. O que a sociedade fez com os corpos gordos


Pessoas gordas passam a vida ouvindo que são: um problema, uma doença, um erro, um corpo que precisa ser corrigido...


Essa narrativa machuca profundamente. Então, quando alguém emagrece, muitas vezes surge um impulso quase inconsciente: provar que agora pertence ao “lado certo”.


É uma tentativa de sobrevivência social. Mas isso pode produzir algo doloroso: a pessoa que foi ferida por esse rótulo, começa a reproduzir o mesmo preconceito.


5. Quando o oprimido reproduz a opressão


Esse fenômeno não é exclusivo da questão do peso. Ele aparece em muitos contextos sociais.

  • Ex-fumantes frequentemente se tornam os mais intolerantes com fumantes.

  • Ex-pobres podem virar defensores radicais da meritocracia.

  • Convertidos religiosos costumam ser os mais rígidos.


Existe um mecanismo semelhante em todos esses casos: quanto maior foi o sofrimento associado à identidade antiga, maior pode ser a necessidade de se afastar dela.


Às vezes, até atacando quem ainda está ali.


6. O erro das discussões públicas


Quando esse assunto aparece, o debate costuma cair em dois extremos.


Erro 1: Demonizar quem emagreceu

Como se orgulho pessoal ou disciplina fossem ilegítimos.


Erro 2 : Transformar emagrecimento em prova moral

Como se todo corpo fosse apenas resultado de força de vontade.


Os dois simplificam uma realidade muito mais complexa.


7. O que realmente está no centro dessa questão


O cerne da questão não é emagrecer. O cerne que estou enxergando é a violência simbólica que pessoas gordas sofrem durante a vida inteira.


Quando uma sociedade trata um grupo como:

  • menos capaz

  • menos digno

  • menos saudável

  • menos disciplinado


Ela cria uma pressão enorme para que qualquer saída desse grupo seja tratada como prova de valor. E isso pode transformar dor em julgamento.


8. O caminho que eu escolho


Diante de tudo isso, eu também sinto vontade de deixar claro qual é o caminho que eu escolho seguir, que é baseado em:

  • dignidade corporal

  • liberdade de movimento

  • acesso ao esporte

  • acesso à saúde

  • pertencimento


Porque emagrecer não deveria ser um passaporte para dignidade. E continuar gordo nunca deveria ser motivo para perdê-la.


Antes de terminar, eu quero deixar uma coisa muito clara: essa reflexão não é sobre emagrecer ou não emagrecer. Cada pessoa sabe onde a dor aperta. Cada corpo tem sua história. Cada caminho é único.


O ponto que eu quis trazer aqui é outro.

Passar anos sendo oprimido por causa do próprio corpo é uma experiência profundamente dolorosa. Muitas pessoas carregam marcas reais dessa violência. Mas essa dor não pode nos levar a repetir a mesma lógica com outras pessoas.


Porque quando alguém que já sofreu preconceito passa a tratar outras pessoas gordas com desprezo, o ciclo de opressão continua exatamente igual e só muda quem está exercendo.


E o que a gente precisa construir é justamente o contrário disso:

  • um mundo onde ninguém precise provar seu valor pelo tamanho do corpo.

  • Um mundo onde ninguém precise se diminuir para caber.


Por isso eu trouxe esses pontos acima... Não como julgamento, mas como um convite para reflexão.


E eu quero muito ouvir vocês também.

  • O que vocês pensam sobre isso?

  • O que vocês já perceberam ou viveram?


Porque conversar sobre essas coisas com honestidade e respeito é uma das formas mais poderosas de quebrar ciclos que machucam tanta gente.


No fim das contas, o verdadeiro movimento de liberdade acontece quando ninguém precisa perder a própria dignidade e nem para caber "em caixinhas" no mundo, e muito menos se afastar de quem um dia foi,


A gente não precisa se apequenar para provar o próprio valor através do tamanho do corpo.

2 comentários


Membro desconhecido
há 14 horas

Nossa, são taaaaantas coisas para comentar, mas vou de uma lembrança pessoal. Um rapaz, conhecido, que emagreceu e se tornou extremamente agressivo com pessoas gordas. Humilhava e praticamente exigia que emagrecêssemos, dizia que não tínhamos vida, que precisávamos mudar, que nossa situação era horrível. Não sei se ele queria nos convencer ou precisava convencer a ele mesmo para suportar os sofrimentos todos da pós-bariátrica (nem sempre feita com acompanhamento), mas eu devo confessar que criei preconceito com ex-gordo. Eu fugia de pessoas em processo de emagrecimento. Outro ponto, que vou tratar só por alto, é o excesso de validação. É tanto holofote, aplauso. Não importa a causa. Esses dias mesmo comentei em outra publicação. Parei de tomar medicamentos para um…

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Membro desconhecido
há 14 horas

Meu Deus que texto NECESSÁRIO, Naj!! Extremamente coerente, eloquente e bem escrito. Eu perdi um peso sem nem estar buscando especificamente por isso, e sofro demais quando me elogiam só por estar com um corpo mais socialmente aceito, sabe? Isso pra mim nem é nada. É só a ponta do iceberg. Minha vitória pra mim é o processo de auto cuidado que eu iniciei pensando no meu eu futuro, e isso não tem nada a ver com perdas. Tem muito mais a ver com ganhos! Odeio quando me dizem que AGORA eu estou linda, pq pra mim eu sempre fui linda. Mas ngm tá preparado pra essa conversa.

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